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Museu

O Museu Comunitário da Lomba do Pinheiro e Memorial da Família Remião foi fundado em 26 de março de 2006, sendo o primeiro no Brasil a ser localizado em um bairro de periferia. Este importante lugar é sediado em uma casa em estilo colonial português construída no final do século XIX.

Museu Lomba do Pinheiro na Parada 6


O bairro Lomba do Pinheiro está localizado na região leste de Porto Alegre, fazendo divisa com Viamão. As terras que compreendem, atualmente, o bairro fizeram parte da sesmaria de Jerônimo de Ornelas, em torno de 1732. Em 1752, chegaram ao Passo D´Ornelas 59 casais açorianos. Jerônimo de Ornelas vendeu suas terras para Inácio Francisco de Melo, que em 1762 teve as mesmas desapropriadas para a fundação da cidade e distribuição entre os açorianos. Após a década de 1940, parte da extensão de terras passou a ser dividida em grandes lotes e vendida pelos proprietários. No princípio, a região estava nas mãos de poucas famílias portuguesas, que cultivavam a terra e criavam animais, conservando as características rurais até meados de 1960. Os moradores viviam da produção de hortifrutigranjeiros, plantavam, principalmente, mandioca, milho, batata doce e feijão; produziam leite e derivados. Os produtos eram comercializados no bairro e/ou levados ao centro de Porto Alegre. A partir de 1950, a urbanização passou a ser incentivada pelo poder público e muitas famílias oriundas do êxodo rural ocuparam o espaço do bairro, porém, a partir de 1960, a ocupação se deu desordenadamente. O bairro começou a receber um número maior de moradores em 1965, quando o Rio/Lago Guaíba transbordou e foram construídas cem casas populares para as famílias desabrigadas, nascendo nessa época a Vila MAPA – Movimento Assistencial de Porto Alegre.


Da necessidade de serviços básicos nasceu, na Lomba do Pinheiro, em 1957, a primeira associação de moradores do bairro – A Associação Comunitária dos Amigos da Vila São Francisco e Lomba do Pinheiro- com o intuito de organizar a sua pequena população para reivindicar serviços básicos, sendo uma das primeiras a possuir instalação de energia elétrica, que chegou ao bairro graças a esforços de algumas famílias que reuniram determinado valor e custearam a instalação da rede elétrica. O primeiro posto de saúde do bairro é da mesma época e também foi conquista da associação de moradores. Oficialmente, o bairro foi criado pela Lei 2002, de 1959, mas só ganhou nome a partir de 1962, com o projeto de lei do vereador Landell de Moura. Em 1997, seus limites foram alterados pela Lei 7954, passando a incorporar algumas vilas que pertenciam a Viamão: São Pedro, Santa Helena, Panorama, Santa Filomena e Bom Sucesso.


O bairro Lomba do Pinheiro tem hoje 33 vilas e 63 mil habitantes distribuídos entre elas. Uma de suas características marcantes é a presença de associações de moradores em todas as vilas, que pleiteiam melhores condições de vida, saneamento, água, luz, calçamento, transporte e escola. Os problemas de infra-estrutura básica e de qualidade de vida ainda são enormes. A tendência é aumentar a população do bairro, tendo em vista que o custo da moradia em outros bairros da capital é bastante alto. A criação de loteamentos acessíveis em regiões periféricas das grandes cidades é uma constante e, na Lomba do Pinheiro, existem extensões de terras desabitadas. Diversas residências em áreas de invasão sofrem o risco de terem problemas graves por terem sido construídas em encostas ou junto a arroios, agredindo a natureza, devido à localização em áreas sem estrutura. O bairro possui diversos núcleos densamente povoados; muitas das vilas existentes foram construídas sobre áreas verdes, comprometendo a mata nativa e a fauna da região e o mesmo está ocorrendo, atualmente, com a construção de condomínios fechados, que em novembro de 2010 somam dez novos condomínios de luxo no bairro.


O ARMAZÉM VENCEDOR


Até a década de 1990, o Armazém Vencedor era mais do que um ponto comercial do bairro, era um local de encontro, de socialização da comunidade. As discussões que aconteciam no armazém eram ardorosas; envolviam assuntos políticos e futebolísticos, entre outros. O rádio sobre o balcão funcionava como um imã, atraindo clientes, visto que a comunidade encontrava-se afastada dos grandes centros urbanos. Ouvir rádio em locais abertos ao público propiciava também uma troca de ideias. Escutavam-se jogos de futebol, novelas, discursos políticos, música etc. O armazém Vencedor abastecia não só moradores da região, mas também outros estabelecimentos – vendas/armazéns – que tinham dificuldades de se deslocarem até o comércio central de Porto Alegre, objetivando a aquisição de mercadorias no atacado para vendas no varejo. De certa forma o armazém fez parte da fundação e da existência do antigo time de futebol Pinheirense Futebol Clube. O campo localizava-se nos terrenos de senhor Osmar, porém hoje a área pertence à cooperativa da vila Elo Dourado. Em dias de jogo Osmar Remião levava algumas mercadorias para a beirada do campo, como refrigerantes e cerveja, doces e salgados. Nos jogos não compareciam apenas os moradores da Lomba do Pinheiro, mas também de outros bairros, que iam jogar e/ou torcer por seus times. Após os jogos, sempre acontecia um baile, momentos inesquecíveis para a comunidade da Lomba do Pinheiro, onde muitos casais se conheceram e constituíram família.


Foi através do trabalho no armazém Vencedor que progrediu o cerne da Família Remião na Lomba do Pinheiro. O primeiro núcleo começou quando João de Oliveira Remião e Rafaela Serpa, após o casamento, foram morar na atual parada 5. João era comerciante e Osmar, um dos seis filhos, herdou tanto a profissão quanto os equipamentos do antigo armazém, antes instalado na residência do casal. O armazém Vencedor funcionou de 1931 até meados de 1990. Muito de seu mobiliário é possível ser visto no museu, como armários, balcões, cofre, balanças, entre outros objetos.


O MUSEU


É mantido pelo Instituto Popular de Arte-Educação (IPDAE), e conta como uma coordenadora, a historiadora Claudia da Silva Feijó, e a colaboração de acadêmicos estagiários da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS- e da Pontifícia Universidade Católica – PUC/RS.


Como citado anteriormente, o armazém, além das mercadorias convencionais comercializadas pelo proprietário Osmar Remião, também fornecia ferragens, material escolar e utilidades domésticas. No MCLP/MFR, são conservados diversos frascos de remédios, que eram utilizados décadas atrás. Entre outros acervos, podem ser vistos: o cofre, o maquinário, o rádio, roupas e muitos utensílios e objetos pessoais em ótimas condições, que de certa forma registram as atividades desenvolvidas na época. O museu conta com um arquivo de fotos e documentos, que são procurados por advogados para o esclarecimento de assuntos relativos a direito de propriedades de terras na região. Nesses arquivos também é possível encontrar farta documentação de escritos: ofícios, cartas e bilhetes comprobatórios das ações da família junto a seus familiares, com a comunidade do bairro e com autoridades do governo do estado do Rio Grande do Sul, da prefeitura e vereadores da Câmara Municipal de Porto Alegre. O acervo é um significativo registro de uma época, pois as marcas deixadas pelo senhor Osmar Remião e sua esposa, dona Marietta, ainda são percebidas na comunidade do bairro Lomba do Pinheiro.


Aberto ao público em 26 de março de 2006, o Museu Comunitário da Lomba do Pinheiro e Memorial da Família Remião – MCLP/MFR – surgiu da demanda da própria comunidade do bairro e, principalmente, da família Remião, que doou o prédio do antigo armazém da família para que se tornasse sede do museu. A edificação fica localizada junto a um terreno caracterizado por uma mata que preserva plantas e árvores nativas da região. O prédio é uma construção do final do século XIX, doada pelo herdeiro, Sr. Edemar Remião, ao Instituto Popular de Arte-Educação – IPDAE – que é uma organização não governamental, também com sede no bairro, mantenedora do museu.


Os museus comunitários tem como pressuposto de sua existência a função social, não abrangendo como acervo apenas os objetos existentes no prédio sede, mas também todo o entorno; não apenas a coleção de objetos da comunidade local e sim seu território, suas culturas, suas trajetórias, suas memórias. Estes espaços são construídos em parcerias com a população, levando em conta suas expectativas, visto que trata-se de um gerenciador de atividades culturais no bairro Lomba do Pinheiro, ultrapassando as atividades da área de memória simplesmente. Nele são desenvolvidos diversos cursos, tais como de xadrez, audiovisual, mapeamento cultural, língua estrangeira, teatro, curso pré-vestibular, fotografia na lata, educação para o patrimônio e o Programa Conexões de Saberes, este em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Nestes últimos dois anos, após a criação do curso de museologia da UFRGS, se estabeleceu uma parceria entre a universidade federal e o museu para o desenvolvimento do Programa Lomba do Pinheiro, Memória, Informação e Cidadania, visando conscientizar os moradores a (re)conhecer e assimilar o patrimônio do território. Através deste Programa diversos trabalhos e projetos foram e estão sendo desenvolvidos, entre eles: História Oral (Rodas de Memória), Educação para o Patrimônio, Formação de Professores, Catalogação do Acervo, Museu de Rua, Lomba Tur.


Esses projetos e trabalhos visam adequar cada vez mais a instituição à Nova Museologia e estimular a comunidade a pensar e participar na construção do futuro, das ações e decisões cotidianas, avaliando trabalhos e iniciativas tomadas por outros agentes de desenvolvimento. Objetivam aproximar a noção de patrimônio com a de território e as utilizações desse em prol da comunidade.


O prédio conta ainda com uma biblioteca, que além de proporcionar o acesso a livros, revistas e gibis, também promove oficinas de leitura, produção textual e aulas de reforço escolar. O museu amplia suas ações a cada ano, usando de diferentes estratégias para proporcionar à comunidade o desenvolvimento de sua criatividade, de seu conhecimento e de sua melhor qualidade de vida.


O bairro Lomba do Pinheiro sempre se sobressaiu pela organização comunitária, com uma característica da população local, através das associações de moradores das vilas, com o hábito da organização para a obtenção de melhorias nas questões sociais relacionadas ao bairro. MCLP/MFR aparece como potencializador, na medida em que trabalha com a memória social, e com a trajetória, por exemplo, do passado de resistência e na busca por infra-estrutura. Como um dos maiores problemas do bairro é o desmatamento e a falta de respeito aos recursos naturais, ele atua junto aos educadores das escolas locais, ao fazer um relato das conquistas obtidas, realçando o passado rural, problematizando as atuais relações do homem com o meio ambiente, usando como recurso a própria área verde existente no espaço interno da instituição. O museu destaca ainda espaço às histórias de vida e aos lugares de memória no bairro, para que os moradores se sintam incentivados a melhorá-lo e auxiliar na construção de um lugar ideal para suas vidas. Assim, as atividades que acontecem regularmente são reconhecidas nas mais diversas modalidades, seja com moradores das vilas, com professores e estudantes do bairro ou com estudantes universitários do estado e mesmo do exterior.


Sem dúvida, o armazém Vencedor representou um marco na história da Lomba do Pinheiro e o Museu Comunitário segue uma linha de ações onde a comunidade participa ativamente. Funciona com dinamicidade no diálogo com a população, tendo a função de canalizar as oportunidades e as práticas culturais específicas da região.